O início do ano letivo marca o ponto de partida para uma das jornadas mais desafiadoras para os alunos que estão no terceiro ano do Ensino Médio: a preparação para os processos seletivos de 2026. Segundo especialistas em educação, começar os estudos cedo permite que o aluno identifique lacunas de conhecimento, familiarize-se com os diferentes modelos de prova e, principalmente, evite o acúmulo de conteúdo que gera ansiedade na reta final da preparação. Com a concorrência cada vez mais acirrada, um planejamento que equilibre domínio de conteúdo, estratégia de prova e estabilidade emocional pode contribuir para a tão sonhada aprovação.
Como se preparar para o Enem?
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), por ser uma prova de abrangência nacional, é a principal porta de entrada dos estudantes brasileiros para o ensino superior, pois além de ser obrigatório para participar de programas educacionais como o Sisu, ProUni e Fies, também é aceito como forma de ingresso, em substituição ao vestibular, por diversas instituições de ensino públicas e privadas, tanto no Brasil, como no exterior.
O Enem cobra do estudante conhecimentos nas áreas de Linguagens (Língua Portuguesa, Literatura, Língua Estrangeira, Artes, Educação Física e Tecnologias da Informação e Comunicação), Ciências Humanas (História, Geografia, Filosofia e Sociologia), Ciências da Natureza (Biologia, Química e Física), Matemática e Redação.
Como o “terceirão” funciona como um período de consolidação de tudo o que o aluno aprendeu ao longo da trajetória escolar, esse período favorece a preparação para o exame. “A revisão contínua do aprendizado, que é feita no último ano do Ensino Médio, ajuda o candidato a chegar ao final do ano com um conhecimento mais robusto, mas a preparação específica para o Enem é essencial, entendendo o formato da prova e o que ela busca aferir do jovem”, explica Fernanda Silveira, coordenadora do Ensino Médio do colégio Progresso Bilíngue, de Campinas (SP).
O Enem é uma verdadeira “maratona” de resistência intelectual e física e, por isso, a especialista orienta algumas estratégias de organização e de estudos:
Cronograma realista: crie um ciclo de estudos, dividido por disciplinas, com datas que possam ser cumpridas, pensando em revisitar os conteúdos que tradicionalmente caem no Enem, com revisões curtas e intervalos regulares, evitando maratonas exaustivas que prejudicam a memorização;
Simulados: resolver exercícios baseados no formato do Enem e provas oficiais anteriores é a melhor forma de se habituar com o que será exigido do estudante;
Foco na contextualização: não tente apenas memorizar fórmulas, mas entender o contexto do conteúdo; pois o Enem valoriza a capacidade de aplicar a teoria a situações-problema reais e cotidianas;
Leitura diversificada: além de literatura, consuma notícias, infográficos e artigos de opinião para fortalecer a interpretação de textos e o repertório para a redação. O Enem tem por tradição trazer para a prova assuntos atuais do cotidiano e da vida em sociedade como, por exemplo, mudanças climáticas, conflitos geopolíticos ou avanços da inteligência artificial;
Mapas mentais e resumos: utilize ferramentas visuais para conectar os temas e facilitar a revisão ativa dos tópicos de maior incidência;
Pratique a escrita: para a redação, que tem um grande peso na nota final, a dica é praticar a escrita. O estudante pode escrever redações regularmente, pedindo ajuda de um professor para a revisão do texto. Só a prática constante permite aprimorar a capacidade de articulação de ideias que a prova exige.
Vestibulares: escolha um alvo e se prepare para ele
Embora o Enem seja o processo seletivo mais popular, algumas universidades, sobretudo as mais prestigiadas, têm os seus vestibulares com regras próprias, como é o caso da USP, Unicamp, Unesp e ITA.
Esses vestibulares possuem formatos e identidades que exigem uma preparação sob medida. “Para quem busca uma vaga nessas instituições, o conteúdo já aprendido e a expectativa pelo Enem podem ajudar, mas é preciso uma preparação e foco especial sobre como cada banca avalia as competências”, afirma o coordenador pedagógico do Brazilian International School – BIS, de São Paulo (SP), Henrique Barreto Andrade Dias.
Para se preparar para os processos seletivos, assim como o Enem, é fundamental criar um cronograma de estudos, investir em simulados, e, sobretudo, dissecar os editais. “O edital detalha os pesos de cada disciplina para o curso escolhido. Se o seu curso dá maior peso para Biologia, por exemplo, sua estratégia de estudos deve refletir essa prioridade”, diz o coordenador.
Além das primeiras fases de múltipla escolha, os vestibulares mais concorridos costumam ter segundas e terceiras fases com questões dissertativas. “Os conteúdos cobrados nos vestibulares costumam ser mais densos, testando o aprofundamento que o candidato tem nas diversas disciplinas. O vestibular não é apenas um teste de memória, mas de raciocínio, resistência e estratégia. Entender o perfil da banca permite que o aluno estude de forma inteligente, priorizando o que realmente pontua para a aprovação”, acrescenta Dias.
Fuvest: considerada uma das mais difíceis e concorridas do país, o processo seletivo da Universidade de São Paulo (USP), considerada a melhor universidade da América Latina, busca identificar estudantes com raciocínio crítico e precisão técnica. Entre as exigências está uma lista de obras literárias obrigatórias; uma primeira fase que possui 80 questões objetivas, enquanto a segunda exige respostas discursivas complexas. Recentemente, a USP apresentou mudanças na prova de redação, que passou a cobrar gêneros textuais variados, como cartas, crônicas ou discursos, não mais atendo-se somente ao tradicional modelo dissertativo argumentativo.
Unicamp: o processo seletivo da Universidade Estadual de Campinas avalia múltiplas competências integradas, como leitura crítica, argumentação e clareza na escrita. Na primeira fase, o candidato enfrenta 72 questões objetivas interdisciplinares; e na segunda, questões dissertativas. Um dos maiores diferenciais é a redação, que oferece duas propostas de gêneros textuais distintos, das quais o aluno deve escolher apenas uma para desenvolver.
Unesp: o vestibular da Universidade Estadual Paulista é formatado pela Fundação Vunesp que valoriza a interpretação de textos, gráficos e imagens, em detrimento da memorização. Suas questões costumam relacionar áreas do conhecimento da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) a situações reais de cidadania e tecnologia. A primeira fase é composta por 90 questões; enquanto a segunda fase é composta por 36 questões discursivas divididas em dois dias, além de uma redação dissertativa argumentativa.
ITA: o Instituto Tecnológico de Aeronáutica dedica-se à formação de engenheiros para as áreas aeroespacial e de defesa, não aceita a nota do Enem e possui um dos processos seletivos mais rigorosos do Brasil. O nível de exigência em Física, Química e Matemática é altíssimo, com questões que integram múltiplos conceitos complexos. Na segunda fase, com quatro dias de provas dissertativas, o candidato deve demonstrar passo a passo o raciocínio utilizado na resolução dos problemas propostos.
Como estudar para mais de um vestibular simultaneamente?
Como grande parte das provas compartilha uma base comum de conteúdos e competências, é possível se preparar para dois ou mais exames simultaneamente, ao priorizar temas transversais e habilidades recorrentes. Um bom exemplo é a Língua Portuguesa e a interpretação de textos, eixo central de praticamente todos os processos seletivos.
Para otimizar essa preparação, é fundamental aplicar a estratégia do “Raio-X” dos vestibulares. Isso consiste em analisar os dados estatísticos das provas anteriores para mapear os conteúdos de maior incidência em cada banca. Ao sobrepor esses mapas, o estudante consegue visualizar claramente a interseção de conteúdos — ou seja, os tópicos que são cobrados de forma semelhante em todos os exames almejados. Focar nessa base comum economiza tempo e garante cobertura máxima da matéria.
Um exemplo clássico dessa interseção é a Língua Portuguesa e a interpretação de textos, eixo central de praticamente todos os processos seletivos. “Ao treinar leitura e argumentação, por exemplo, o estudante fortalece automaticamente sua performance no Enem e em outras provas. Todas elas exigem domínio de diferentes gêneros textuais, como crônicas, reportagens, tirinhas e infográficos, e capacidade de análise crítica”, explica Peter Rifaat, coordenador pedagógico da Escola Internacional de Alphaville.
Vale concentrar esforços em conteúdos que historicamente aparecem em quase todos os exames. Por exemplo: em Biologia, temas como Ecologia e Citologia são quase onipresentes; em Matemática, porcentagem, razão, proporção e regra de três formam a base da maioria das questões.
“Outro ponto fundamental é o treino da interdisciplinaridade. As provas frequentemente articulam conhecimentos de diferentes campos, relacionando Biologia com Química, História com Sociologia ou Literatura com atualidades. Estudar de forma integrada ajuda o aluno a ganhar agilidade cognitiva e a compreender como os conteúdos dialogam entre si”, completa Rifaat.
Nem só de estudos vive o vestibulando
No início do ano letivo, quando o calendário de provas ainda parece distante, a preparação para vestibulares e para o Enem deve ser encarada como um projeto de longo prazo, e não como uma corrida de curto fôlego. Isso significa que, além de um plano de estudos consistente, o estudante precisa aprender a equilibrar a rotina acadêmica com a vida pessoal. Revisões estratégicas, simulados e organização do tempo são fundamentais, mas só produzem bons resultados quando inseridos em uma rotina saudável, que possa ser mantida ao longo de todo o ano.
Nesse sentido, o cuidado com o bem-estar físico e mental faz parte da estratégia de preparação. A prática regular de atividades físicas, a manutenção de momentos de descanso e o cultivo de hobbies ajudam a reduzir o estresse, melhorar a concentração e aumentar a capacidade de aprendizagem. Inserir pausas na rotina, respeitar horários de sono e reservar tempo para atividades prazerosas contribui para que o estudante chegue à reta final menos exausto e mais confiante.
“O aluno precisa entender que estudar bem não significa estudar o tempo todo”, explica Janaína Arruda da Silva, professora da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP). Segundo ela, gerir a energia ao longo do ano é tão importante quanto cumprir o cronograma de conteúdos. “Atividades esportivas, convivência social e momentos de lazer não atrapalham o desempenho; ao contrário, ajudam a manter o equilíbrio emocional e a clareza de raciocínio, especialmente em um processo de preparação longo e exigente como o dos vestibulares”, afirma.
Ao adotar uma rotina equilibrada desde o início do ano, o estudante aumenta suas chances de manter a disciplina, evitar o esgotamento e chegar aos meses decisivos com saúde emocional e disposição. “A preparação eficaz é aquela que alia constância nos estudos, autocuidado e qualidade de vida”, conclui Janaína.




