A presença feminina no audiovisual brasileiro está avançando de forma consistente, impulsionada pela profissionalização do setor e por iniciativas de inclusão. De acordo com o Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro 2024, divulgado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), as mulheres representam 42% da força de trabalho da indústria, percentual que supera a média da economia nacional (40,9%). Elas também já são maioria em áreas estratégicas da cadeia produtiva, liderando 58% dos postos na exibição e 54% na distribuição.
O avanço é significativo, mas o contraste aparece no momento em que se observa as funções de maior prestígio criativo. Segundo o estudo, apenas 17% dos longas-metragens e séries lançados no país são dirigidos por mulheres.
O dado evidencia um desequilíbrio estrutural: enquanto a presença feminina cresce em setores técnicos e operacionais, o acesso às posições de comando artístico permanece restrito.
Para Rafaela Rocha, editora e especialista em pós-produção, que já atuou em projetos como “Neymar – O Caos Perfeito”, “Gaming Queens” e o longa “Colegas e o Herdeiro”, esse cenário mostra que o mercado brasileiro está evoluindo, mas ainda enfrenta barreiras históricas.
“Os números mostram que estamos ocupando mais espaços, mas não nas funções onde a narrativa realmente é definida. É incoerente termos tanta participação na operação e tão pouca na direção. Falta acesso real às decisões criativas”, afirma Rafaela Rocha.
Ela destaca que, além de representatividade, a presença feminina influencia diretamente a eficiência da produção.
“Mulheres trazem uma visão integrada. Quando lideramos equipes, há mais organização, melhor fluxo de comunicação e menos retrabalho. Isso impacta prazos, orçamento e qualidade final”, explica.
Outro ponto relevante é a diversidade narrativa. A ampliação da presença feminina no audiovisual tem contribuído para que novos temas e perspectivas cheguem ao público, enriquecendo o repertório cultural do país.
“Quando mulheres participam da construção de histórias, a variedade de temas aumenta. Personagens femininas ganham mais profundidade e situações antes invisibilizadas passam a ser retratadas com autenticidade”, observa Rafaela.
Especialistas apontam que o caminho para equilibrar o setor passa por políticas mais assertivas dentro das produtoras, ampliação de editais específicos, programas de formação e mecanismos que estimulem mulheres a ocupar funções criativas de maior responsabilidade.
A atualização do OCA pela Ancine reforça a importância de dados públicos para orientar decisões e identificar gargalos.
Mesmo com desafios, o avanço registrado no Anuário mostra um setor em transformação. Com participação ampla em funções técnicas, administrativas e de gestão, as mulheres já são parte indispensável da construção do audiovisual brasileiro contemporâneo.
O próximo passo é garantir que essa presença se reflita também na autoria e na direção das obras.
“Temos capacidade técnica e visão criativa. O mercado só precisa abrir as portas certas. O público ganha quando mais mulheres escrevem, dirigem e lideram projetos”, conclui Rafaela Rocha.
Com mais mulheres nos bastidores, o audiovisual brasileiro se torna mais plural, competitivo e alinhado às demandas contemporâneas de diversidade e representatividade.
Rafaela Rocha representa uma geração de profissionais que ajudou a elevar o padrão da pós-produção no Brasil, combinando repertório em projetos de grande visibilidade com uma leitura estratégica do setor.
Ao trazer para o debate a diferença entre “estar presente” e “decidir os rumos criativos”, ela reforça que a evolução do audiovisual não é só uma questão de números, mas de acesso real às posições onde as histórias são definidas — e onde a indústria ganha em qualidade, eficiência e diversidade quando mais mulheres lideram.
Fonte das informações: Ancine




