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quarta-feira, setembro 30, 2026
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O futuro da saúde precisa ir além dos grandes centros

por: Hiram Nicolau. 

Durante muito tempo, falar em inovação na saúde brasileira significava olhar para os grandes centros médicos e hospitais de referência, onde novas tecnologias e tratamentos costumavam chegar primeiro. Em um país de dimensões continentais, porém, inovar também precisa significar encurtar distâncias. 

Esse desafio ganha uma dimensão ainda maior quando observamos regiões com barreiras históricas de acesso, como a Amazônia. As grandes distâncias, a concentração de especialistas e a necessidade de deslocamento de pacientes sempre foram obstáculos para determinados tratamentos. Nesse cenário, os avanços da medicina podem contribuir para reduzir essas barreiras e aproximar uma assistência mais especializada da população. 

A evolução da medicina digital mostra que inovação não deve ser entendida como substituição da experiência humana, mas como uma aliada dos profissionais de saúde. Soluções baseadas em inteligência artificial já podem auxiliar na organização de informações clínicas, identificação de riscos e tomada de decisão, desde que estejam integradas à rotina assistencial e sejam utilizadas sob supervisão médica. Estudos recentes apontam o potencial dessas ferramentas para interpretar dados e antecipar eventos adversos, preservando o papel do médico na avaliação de cada caso (1). 

Esse é um dos grandes debates atuais da saúde: como transformar o enorme volume de dados disponíveis em conhecimento útil para a assistência. Hospitais lidam diariamente com exames, históricos, protocolos e registros clínicos. Mais do que coletar essas informações, é preciso organizá-las de forma segura para contribuir com decisões mais ágeis e qualificadas. 

Novas aplicações de inteligência artificial avançam justamente nessa direção. Um estudo publicado no npj Digital Medicine, em 2025, avaliou modelos capazes de integrar diferentes fontes de dados do prontuário eletrônico para apoiar decisões clínicas (2). No mesmo sentido, uma meta-análise sobre sistemas de alerta precoce baseados em IA apontou potencial para identificar sinais de deterioração clínica, ressaltando a importância da validação e da integração adequada dessas soluções aos serviços de saúde (4). 

Na prática médica, esse é o valor que devemos buscar: recursos capazes de contribuir para uma assistência mais segura e dar aos profissionais melhores condições para se dedicar àquilo que nenhuma máquina substitui: a avaliação clínica e a relação com o paciente. 

A cirurgia robótica é outro exemplo dessa transformação. Mais do que um equipamento sofisticado, trata-se de uma plataforma que amplia as possibilidades da cirurgia minimamente invasiva, com recursos como visão ampliada, maior precisão dos movimentos e instrumentos articulados controlados pelo cirurgião. 

O desenvolvimento dessa área aponta para uma integração crescente entre robótica, inteligência artificial e análise de dados. Revisões recentes indicam que seu futuro estará cada vez mais relacionado à combinação entre recursos tecnológicos e conhecimento médico, mantendo o cirurgião no centro das decisões clínicas e do atendimento individualizado (3). 

Na Região Norte, essa evolução adquire um significado ainda maior. A chegada de recursos antes concentrados nos principais centros do país não representa apenas ampliar a infraestrutura disponível. Significa também formar equipes, desenvolver conhecimento especializado localmente e criar condições para que a própria região amplie sua capacidade de oferecer tratamentos de maior complexidade. 

Na Samel, esse processo faz parte de uma estratégia de ampliar o acesso a recursos aplicados à assistência, como cirurgia robótica, inteligência artificial para suporte clínico e soluções voltadas à reabilitação. Mais do que incorporar novas ferramentas, buscamos avaliar como elas podem contribuir efetivamente para uma jornada mais segura e eficiente para o paciente. 

Esse avanço, no entanto, vem acompanhado de responsabilidade. Segurança, ética, proteção de dados e supervisão médica precisam caminhar junto com a evolução tecnológica. A inovação deve estar a serviço da medicina, e seu impacto precisa ser medido pela capacidade de melhorar a assistência, apoiar as equipes e gerar benefícios concretos para as pessoas. 

O futuro da saúde, portanto, não será definido apenas pela disponibilidade de novas tecnologias, mas pela forma como conseguiremos incorporá-las à prática clínica e torná-las acessíveis. Hospitais preparados para esse cenário serão aqueles capazes de unir conhecimento médico, ciência e inovação de maneira responsável. 

Em um país tão diverso quanto o Brasil, esse futuro também precisa avançar geograficamente. Na Amazônia, aproximar os avanços da medicina de quem historicamente esteve distante dos principais polos de inovação é mais do que acompanhar uma transformação tecnológica. É contribuir para que o lugar onde uma pessoa vive não determine o acesso que ela terá ao futuro da saúde. 

*Hiram Nicolau, diretor comercial do Grupo Samel.   

Referências científicas 

(1) Oei SP et al. Artificial intelligence in clinical decision support and the prediction of adverse events. Frontiers in Digital Health, 2025. (https://www.frontiersin.org/journals/digital-health/articles/10.3389/fdgth.2025.1403047/full) 

(2) Lee SA et al. Clinical decision support using pseudo-notes from multiple streams of EHR data. npj Digital Medicine, 2025. (https://www.nature.com/articles/s41746-025-01777-x) 

(3) Cella L et al. The future of robotic surgery in the age of artificial intelligence. Nature Reviews Urology, 2026. (https://www.nature.com/articles/s41585-026-01153-8) 

(4) Yuan S et al. AI-Powered early warning systems for clinical deterioration significantly improve patient outcomes: a meta-analysis. BMC Medical Informatics and Decision Making, 2025. (https://bmcmedinformdecismak.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12911-025-03048-x) 

(5) Seifi S et al. Artificial Intelligence and Robotics in General Surgery: Opportunities and Challenges. Cureus, 2026. (https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13283024/)  

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