Durante o período de amamentação, a alimentação da mãe ganha ainda mais importância. Mais do que seguir listas de alimentos permitidos ou proibidos, a recomendação dos especialistas é priorizar uma dieta variada, equilibrada e baseada em alimentos in natura ou minimamente processados, além de manter uma boa hidratação. O tema ganha destaque em agosto, mês dedicado à conscientização sobre o aleitamento materno e à promoção de práticas que contribuam para a saúde de mães e bebês.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida e a continuidade da amamentação, junto à introdução da alimentação complementar adequada, até os dois anos de idade ou mais. No Brasil, o Ministério da Saúde também reforça que não existe uma dieta única ou um conjunto universal de alimentos que a mulher precise consumir durante a lactação. O mais importante é garantir variedade e qualidade nutricional ao longo do dia.
De acordo com a nutricionista e professora do curso de Nutrição da Wyden, Joseane Almeida Santos Nobre, a alimentação durante a lactação deve ser encarada de maneira tranquila, sem restrições desnecessárias. A orientação é que a mulher mantenha refeições diversificadas, incluindo frutas, verduras, legumes, cereais, feijões, carnes, ovos e outras fontes de proteínas, adequando as escolhas à sua realidade e às necessidades individuais.
A recomendação está em sintonia com o Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, que orienta fazer dos alimentos in natura ou minimamente processados a base da alimentação e evitar o consumo frequente de produtos ultraprocessados. Durante a lactação, portanto, não é necessário buscar uma alimentação extremamente restritiva ou seguir dietas da moda. A qualidade e a diversidade dos alimentos consumidos são mais relevantes para a saúde materna.
O cuidado também envolve a ingestão de bebidas. A cafeína merece atenção porque pode passar para o leite materno e, quando consumida em excesso, eventualmente estar associada a irritabilidade ou alterações no sono do bebê. Café, chás com cafeína, bebidas energéticas, refrigerantes à base de cola e chocolate são algumas das fontes que devem ser consideradas no consumo diário. A orientação, entretanto, deve levar em conta a quantidade ingerida e a resposta individual de mãe e bebê, em vez de determinar a exclusão automática desses produtos.
O álcool, por outro lado, é uma substância para a qual a recomendação durante a amamentação é de evitar o consumo. A OMS e o Ministério da Saúde destacam que o álcool passa para o leite materno e pode representar riscos ao bebê. Por isso, a opção mais segura durante o período de amamentação é não consumir bebidas alcoólicas.
Outro ponto fundamental é a hidratação. A produção de leite aumenta a demanda de líquidos do organismo, e a própria sensação de sede costuma ser um indicativo importante para a ingestão de água. O Ministério da Saúde recomenda que a mulher tenha água disponível durante o período de amamentação e beba regularmente, sem necessidade de estabelecer uma quantidade rígida que sirva para todas as pessoas. As necessidades podem variar de acordo com temperatura, nível de atividade física, alimentação e características individuais.
A ideia de que determinados alimentos necessariamente provocam cólicas ou gases no bebê também deve ser analisada com cautela. Segundo a nutricionista Joseane, não há justificativa para que a mulher retire diversos alimentos da dieta preventivamente. No material elaborado anteriormente pela especialista, ela chama atenção para a falta de comprovação de que alimentos específicos sejam responsáveis pelas cólicas em todos os bebês e ressalta a importância de analisar cada situação individualmente.
“Existem assuntos controversos quando se fala em amamentação, como o fato de alguns alimentos contribuírem para as cólicas do bebê. Não há estudos que comprovem efetivamente a influência, no entanto muitas mães acabam levando boatos como este em consideração e isso pode prejudicar a saúde dela e do bebê, já que cada caso é individual. Sendo assim, o nutricionista é o profissional que pode orientar de forma correta”, explica Joseane.
A saúde emocional da mulher também precisa fazer parte desse cuidado. O período pós-parto envolve mudanças físicas, hormonais e na rotina, e transformar a alimentação em uma fonte permanente de culpa ou ansiedade pode dificultar a relação da mãe com a própria alimentação. Por isso, a orientação é evitar restrições sem indicação profissional e buscar uma rotina alimentar possível de ser mantida diante da nova dinâmica familiar.
O acompanhamento individualizado ganha importância especialmente quando existem dúvidas sobre perda ou ganho de peso, deficiências nutricionais, alergias, intolerâncias, doenças preexistentes ou situações específicas relacionadas ao bebê. O nutricionista pode avaliar a alimentação da mãe, identificar possíveis inadequações e orientar ajustes sem comprometer a qualidade da dieta.
Além da alimentação materna, a campanha de agosto reforça que o aleitamento deve ser tratado como uma questão de saúde pública. Segundo a OMS, o leite materno é uma fonte importante de energia e nutrientes para crianças pequenas e contribui para a proteção contra infecções e doenças. Para as mães, a amamentação também está associada a benefícios à saúde, incluindo menor risco de câncer de mama e ovário e de diabetes tipo 2.
No Brasil, o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani-2019), coordenado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com apoio do Ministério da Saúde, mostrou que 45,8% das crianças brasileiras menores de seis meses estavam em aleitamento materno exclusivo. O levantamento também apontou que 60,3% das crianças menores de quatro meses estavam exclusivamente em aleitamento materno. Os números mostram avanços importantes, mas também evidenciam que a manutenção da amamentação ainda depende de uma rede de apoio que envolva família, profissionais de saúde, empregadores e políticas públicas.
Nesse cenário, falar sobre alimentação durante a lactação significa ir além da ideia de que a mãe precisa seguir uma dieta perfeita. A recomendação é construir uma rotina possível, nutritiva e diversificada, com atenção à hidratação, moderação no consumo de cafeína, exclusão do álcool e redução de produtos ultraprocessados. Mais do que listas de restrições, informação de qualidade e acompanhamento profissional podem ajudar a mulher a atravessar o período de amamentação com mais segurança e tranquilidade.




